DECISÃO EQUIVOCADA SOBRE O USO DE RISERS COM TUBOS FLEXÍVEIS COLOCA EM RISCO A PRODUÇÃO DO PRÉ-SAL

Jair Brasil 12 de maio de 2019 0 Comments

DECISÃO EQUIVOCADA SOBRE O USO DE RISERS COM TUBOS FLEXÍVEIS COLOCA EM RISCO A PRODUÇÃO DO PRÉ-SAL

20. JUN, 2017 39 COMENTÁRIOS

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Uma decisão equivocada da gerência executiva de serviços da diretoria de exploração e produção da Petrobrás, comandada por Cristina Pinho (foto), está pondo em grave risco a produção do pré-sal brasileiro. A escolha por usar tubos flexíveis nos Risers dos poços do pré-sal enfrentou uma espécie de desafio imposto pela natureza: o altíssimo nível de corrosão provocado pelos contaminantes H2S e, principalmente, pelo CO2, extremamente corrosivos, está trazendo resultados terríveis para a eficiência da produção. Sem contar que o problema se agrava devido a dois fatores: o peso desses Risers, que aumenta a tensão, e a reinjeção do CO2 no reservatório. As consequências destes problemas produziram um fenômeno nas tubulações identificado pelos especialistas como SCC – Stress Corrosion Cracking. O SCC provoca a queda das linhas dos Risers, parando a produção dos campos e ameaçando o meio ambiente com possíveis vazamentos de petróleo e gás no mar. Já aconteceu nos Campos de Lula e Sapinhoá.

Os tubos flexíveis foram anunciados como sendo uma nova fronteira da tecnologia, capazes de suportarem a pressões internas de até 600 atmosferas e os gases corrosivos. Mas, há um ano, o problema dessa grave corrosão foi identificado pelos especialistas da Petrobrás e  das empresas fornecedoras dos Risers, que foram avisadas imediatamente. Desde então, essas empresas intensificaram os estudos  para conhecer o problema a fundo e buscar novos materiais que substituam o atual. Até agora, sem sucesso. No caso de tubos flexíveis, há pesquisas com diversos materiais, como o uso do aço inoxidável e até mesmo um compósito com base no aço carbono, mas até agora ainda não há uma solução confiável.

Há informações de que já houve pelo menos a queda de quatro  linhas de Risers,  interrompendo a produção.  O fato é ainda mais grave porque no caso do contrato de fornecimento de cem quilômetros de linhas com a TechnipFMC,  não foi prevista a cláusula de liability. Ou seja, é um fornecimento sem punições em caso de problemas, portanto, sem garantias do fabricante. A linha deveria durar de 20 a 30 anos sem manutenção,  mas caiu com pouco mais de dois anos. E o prejuízo, por falta desta cláusula de garantia, ficará por conta da Petrobrás.

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O caso piora e expõe o erro da escolha pelos Risers flexíveis quando se tem conhecimento da contratação de 19 barcos lançadores da tubulação pela Petrobrás. Em função dos riscos identificados, eles estão parados, custando valores altíssimos em taxas de afretamento, em dólar, sem terem como operar. Mesmo assim, a gerência comandada por Cristina Pinho não parece ter sido convencida de uma decisão equivocada. Ela pressiona não só a norte-americana National Oil Varco – NOV –, a GE e a TechnipFMC, empresas fornecedoras dos tubos flexíveis para a Petrobrás, como também a Saipem e a Subsea 7.  Há uma forte pressão contra as empresas para que tentem resolver o problema. Essa pressão vem por duas razões significativas: a primeira, por uma persistência incompreensível para se mostrar que a decisão da gerência da Petrobrás não está errada. A segunda, por um dilema. Foi a própria gerência da Petrobrás a maior defensora de que essas empresas fornecedoras construíssem e instalassem grandes fábricas de tubos flexíveis no Brasil, ao custo de altos investimentos. Sendo assim, como mudar de planos e passar a usar outras alternativas mais sólidas, mais viáveis, como os tubos rígidos?

O Petronotícias teve informações seguras de fontes confiáveis de que os parceiros da Petrobrás no Campo de Libra, com reservas de 8 a 12 bilhões de barris de óleo, estão pressionando a estatal brasileira, operadora do consórcio, para que os Risers a serem usados na exploração do campo sejam rígidos. A Shell e a Total, principais sócios depois da Petrobrás, pressionam usando como base as suas experiências técnicas e o conhecimento das falhas dos Risers flexíveis em Lula e Sapinhoá

Os Risers flexíveis têm um diâmetro de passagem do óleo menor dos que a tubulação rígida, o que aumenta a pressão. Com isso, existe a fuga de gás contaminante pelos micropolímeros da tubulação, colocando esse gás em contato com a água salgada. Esse contato aumenta ainda mais a corrosão, provocando o SCC e, em consequência, com o tempo, a queda das linhas.

Diante das pressões estabelecidas pelos sócios da Petrobrás em Libra, algumas empresas fornecedoras de tubos rígidos cladeados dos Estados Unidos e da Europa já estão sendo consultadas para fornecimento deste tipo de tubulação. Como não há pronta entrega para esse produto, o risco no atraso na produção de Libraprecisa ser considerado firmemente. A Total e a Shell, duas gigantes do setor de petróleo, insistem para que a Petrobrás mude a sua decisão. E há argumentos técnicos, como o diâmetro dos tubos rígidos, que reduz a pressão e aumenta a produtividade, além de poder  ser cladeado, impedindo a fuga de partículas do gás contaminante, evitando o contato com a água salgada.

Nós procuramos ouvir a Shell e a Total. A empresa francesa disse “que não iria comentar”. A Shell, respondeu que: “Esta questão só pode ser respondida pelo operador do projeto. Ressaltamos que as equipes técnicas das sócias de Libra realizam um intercâmbio constante de conhecimento e estão em convivência diária no projeto. “

O mercado de petróleo aprendeu a ler claramente quando uma empresa não quer comentar. Ele lê nas entrelinhas. A turma do mercado de ações, então, nem se fala. Lê até o silêncio. A TechnipFMC disse que: “os técnicos da empresa estão prestando todo apoio necessário à Petrobrás nas investigações sobre o problema.” E a GE, outra fornecedora de tubos flexíveis, enviou a seguinte nota:  “AGE Oil & Gas já forneceu 2.500 km de tubos flexíveis para uso offshore no Brasil, incluindo risers que atualmente operam em campos do pré-sal. A GE Oil & Gas não registrou nenhuma falha por corrosão em tubos flexíveis aplicados nas reservas pré-sal. Os risers e flowlines da companhia são projetados para atender às rigorosas especificações do cliente e aos próprios requisitos de controle estrutural e de qualidade da GE.

O desenvolvimento de novos produtos da GE Oil & Gas é estrategicamente adaptado para oferecer soluções que atendam às necessidades dos clientes, no tempo que eles precisam. Para aplicações futuras do pré-sal – incluindo o campo de Libra –, a companhia está trabalhando em estreita colaboração com seus clientes para entender os requisitos específicos de uso e, na sequência, definir e produzir uma solução que atenda a todas as especificações exigidas.”

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Mesmo diante de todas essas evidências, da profundidade do problema e dos riscos para a produção do pré-sal, a assessoria de imprensa da Petrobrás enviou para o Petronotícias a mesma nota que mandou para outros órgãos de comunicação quando foi noticiada a queda da linha de Risers do Campo de Lula, mesmo sabendo que os nossos questionamentos tinham outra finalidade. Ainda assim, reproduzimos esta nota, mesmo que ela tenha o objetivo de tergiversar sobre o que realmente ocorreu:

“A falha técnica no campo de Lula ocorreu em um duto de injeção de gás, sem consequências ambientais nem risco às instalações ou pessoas. Este evento foi imediatamente controlado pela parada automática do sistema de compressão de gás para reinjeção e fechamento da válvula de segurança desubsuperficie. A manutenção do nível de produção do campo pode ser viabilizada com a injeção de gás através de outros poços. O duto de injeção de gás no campo de Sapinhoá, no final do ano passado, estava fora de operação.

A investigação para conhecer as causas está em andamento. Os resultados parciais do trabalho conduzido em conjunto com o fabricante do duto indicam um mecanismo de falha antes desconhecido na indústria de dutos flexíveis e que ocorre na presença de CO2 combinado a outros parâmetros, que já conhecemos. Foram intensificadas as inspeções nos dutos flexíveis em operação para a manutenção da continuidade operacional com segurança, assim como implementação imediata de soluções para bloquear o problema.

A Petrobras conta com sua experiência de operação e manutenção em dutos flexíveis e com o conhecimento de seu grupo técnico, da comunidade acadêmica, de seus parceiros e fornecedores para prover a solução definitiva para seus de projetos.”

O Petronotícias fez outros questionamentos à Petrobrás. Desde o dia 2 de junho, portanto há 18 dias, a assessoria de imprensa teve oportunidades de responder. Por três vezes adiou as respostas, usando artifícios incompreensíveis  para não responder. Fizemos um pedido de entrevista com a Gerente Cristina Pinho, para que ela pudesse esclarecer algumas  dúvidas ou para que ela respondesse às seguintes perguntas:

1 – A Petrobrás vai continuar optando pelos tubos flexíveis no pré-sal?

2 – No contrato de fornecimento dos 100 quilômetros de tubos flexíveis com a TecnhipFMC tem alguma cláusula de garantia, o liability? Se não, por que não foi feito?

3 – Está havendo pressão dos sócios (Shell e Total) para que os tubos a serem usados no campo sejam rígidos?

4 – A Petrobrás pensa em abandonar os tubos flexíveis pelos tubos rígidos? Se não, por quê?
5 – Quantos contratos a Petrobrás tem com embarcações para lançamento de tubos no mar?

6 – Esses barcos contratados estão em atividade ou estão parados?
7 – Quanto a Petrobrás está gastando com esses barcos?

Não parecem perguntas comprometedoras, a não ser que as respostas deixassem à mostra situações difíceis de explicar. Se não houvesse interesse em esconder as respostas certas, não haveria razão para tanto mistério. Mesmo assim, os assessores Eduardo Villela e Paula Almada, da gerência de imprensa da companhia, não veem da mesma forma. Talvez ainda falte a sensibilidade para se perceber o tamanho do problema que a Petrobrás está enfrentando, o que representa prejuízos milionários para a empresa e compromete a produção brasileira de petróleo.

Um caso desta ordem não pode ser tratado com descaso ou amadorismo. Ao retardar as respostas que expõem algumas decisões equivocadas da companhia, o silêncio em nada contribui. Seria importante esclarecer todos os detalhes o quanto antes. Se existe, de fato, a preocupação com a ética ditada pela Diretoria de Governança da companhia – precisa em apontar os erros éticos em outras empresas -, talvez fosse importante  dar exemplo dentro de casa. A começar pela gerência de imprensa da companhia.

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